Mahsa Amini e o Hijab Feminino: “Mulher, vida, liberdade”

Acompanhada dos pais e de um irmão mais novo, Mahsa Amini, uma jovem iraniana de 22 anos, estava na capital, para passar férias em família, quando se deparou com a autoridade local, encarregada de aplicar o rigoroso código de vestimenta exigido das mulheres na República Islâmica.

Mesmo explicando aos policiais que estava “pela primeira vez em Teerã” e “não conheciam as tradições locais”. Mesmo a jovem estando “vestida como todas as mulheres do Irã, e ela estava usando um hijab”, ainda assim, não adiantou! A autoridade policial determinou: “nós vamos levá-la embora, para incutir nela as regras e ensiná-la a usar o hijab e a se vestir”.

Mahsa Amini foi detida pela chamada ‘polícia da moralidade’ por causa da forma como usava o véu islâmico, que segundo relatos, teria deixado alguns fios de cabelo visíveis sob o hijab feminino.

Sobretudo, o Irã é amplamente conhecido pela cultura rígida e sua repreensão às mulheres. Uma visão que, infelizmente, representa o atual estado do país. Mas saiba que na história, a realidade dessa sociedade nem sempre foi assim!

moda islâmica dos anos 70

Apesar de uma certa “normalização”, até por parte dos ocidentais, a respeito dos costumes religiosos e culturais que permeiam vários países do oriente médio, de fato, antes da Revolução Islâmica de 1979, a sociedade iraniana vivia de forma bem diferente do que vemos na atualidade.

Ainda sendo um país do Oriente Médio, com suas parcelas conservadora e moderada a liberal da população, por algum tempo, o país foi pró-ocidental, permitindo uma certa quantidade de liberdade cultural.

Dessa forma, as tendências estrangeiras e contemporâneas, especialmente as trazidas da Europa, influenciaram os iranianos de tal forma, que pouco antes da revolução, os estilos de roupas nas ruas do Irã eram semelhantes aos de Paris ou Londres.

Confira no vídeo um pouco da moda islâmica nos editoriais de revistas iranianas dos anos 70:

Esses editoriais de moda fotografados nos grandes palácios mostram roupas curtas, calças pantacourt, croppeds e até sandálias gladiadoras relançadas recentemente.

Bem como, a maquiagem era mais chamativa. Usavam batom vermelho e até olho de gatinho.

Até 1979, as mulheres podiam se expressar livremente no Irã, inclusive através da moda.

a revolução islâmica e o hijab

A Revolução Islâmica que ocorreu em 1979, transformou a vida dos iranianos, principalmente das mulheres, que viram seus direitos serem bastantes restringidos.

Um novo governo islâmico viu a ocidentalização do país como um fenômeno negativo. E com a instituição religiosa no comando, castigos corporais e pena de morte foram naturalmente autorizados e aplicados.

Analogamente hábitos antes autorizados para mulheres, como vestimentas livres, música, fumar ou dançar em público, foram condenados! E em poucos meses, as leis já estabelecidas que protegiam os direitos das mulheres, começaram a ser revogadas.

Em seguida, as autoridades impõem o código de vestimenta, e o uso do hijab passa a ser obrigatório no dia-a-dia de todas as mulheres. Inclusive de turistas que estão de passagem pelo país, independente da sua religião ou nacionalidade.

Além disso, é importante dizer que as mulheres que usam o ‘chador iraniano’, aquele típico véu preto que cobre todo o corpo deixando somente o rosto de fora, são geralmente de famílias tradicionais religiosas e condizentes ao governo vigente.

roupas iranianas

Conhecendo alguns trajes islâmicos:

Niqab – Veste negra e longa, que envolve o corpo inteiro e o rosto, deixando apenas uma fresta para os olhos. Seu uso é imposto às mulheres muçulmanas em países como a Arábia Saudita.

Hijab – Nome adotado para o véu islâmico, usado pela maioria das muçulmanas para esconder apenas os cabelos. Seu uso em público é obrigatório no Irã.

Conheça alguns trajes islâmicos.

Burca – Tradicionalmente do Afeganistão e Paquistão, era o traje nobre dos monarcas, que não podiam ser vistos pelos plebeus. Traz um quadriculado na altura dos olhos que permite à mulher enxergar. E seu uso em público é opcional.

Chador – Veste negra que cobre todo o corpo das mulheres muçulmanas xiitas mais religiosas. É obrigatório nos locais sagrados em vários países, e não apenas no Irã.

antes e depois do hijab

Todavia, as mulheres do Irã permanecem divididas sobre o tema do hijab. Para algumas, o rígido código de vestuário continua a ser uma forma de opressão, assim buscam maneiras de se rebelar contra ele usando maquiagem marcante e acessórios da moda sob seus mantos.

Porém, há outras que vêem no véu obrigatório um sinal de integração, um símbolo de respeito e virtude, onde as mais tradicionais usam a vestimenta islâmica como uma forma de proteção ao assédio sexual e à objetificação de seus corpos.

Por fim, a moda iraniana é a expressão da mescla de tradição e modernidade, do religioso e do secular, assim como o país luta para combinar suas necessidades de preservação da identidade étnica e religiosa, juntamente com suas necessidades de progresso e modernização.

Mahsa Amini e o hijab feminino

Mahsa Amini, a jovem iraniana que foi detida pela forma como usava o hijab e que morreu sob custódia da ‘polícia da moralidade’, é mais um capítulo na história controversa do regime iraniano, que passa a atingir muitas cidades e diversas províncias.

O caso virou um símbolo para manifestantes, que saíram às ruas para exigir o fim do uso obrigatório do véu pelas mulheres e cobrar mais liberdades individuais. Demonstrando assim, uma das maiores expressões de insatisfação ao governo, inclusive pedindo o fim da República Islâmica.

Especialistas em direitos humanos, afirmam que as manifestações atuais, são o rompimento de uma insatisfação de anos com as restrições religiosas e sociais do Irã. E que, apesar da violenta repressão estatal, as manifestações foram em grande parte espontâneas e sem liderança.

Eu acredito que o que torna o mundo mais belo e interessante é a capacidade que algumas pessoas têm de ousar e outras de manter suas tradições. Não sou a favor do tradicionalismo extremo nem da banalização da liberdade, e a imposição de ambos é inadmissível. Sendo assim, cabe a cada um encontrar o seu ponto de equilíbrio.

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